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Você já ouvia música eletrônica antes do Dexterz?
Já, mas era uma relação mais distante, mais quando eu saia. No
meu carro, por exemplo, não tocava música eletrônica. Era
mais rock. Colocava muito essas paradas com influência
do eletrônico, mas que ainda é rock; tipo Soulwax, que
é bem indie, com muita referência eletrônica. Isso era
o mais próximo que eu ouvia de eletrônico, fora quando
eu ia pros clubs. Recentemente, eu passei a preferir ir
em baladas eletrônicas. Antes ia mais nas de black, até
tive uma banda de soul music, que se chamava Soul Funk.
E como começou o Dexterz?
Um dia fui assistir o Amon (Lima,
da Família Lima) e o Julio (Torres, DJ), que já eram parceiros
no Crossover, e achei o
máximo. Percebi que um som daqueles feito ao vivo tinha muitas
possibilidades. Eles já faziam isso há quatro anos. Dava pra
perceber que eles já tinham pego as manhas, já tinham uma linguagem
pronta. Fui falar com eles um dia e sugeri colocar uma batera
no meio daquilo, como uma canja. Eles toparam e armamos essa
minha participação no evento da Cool, há dois anos. Nessa ocasião,
eu toquei com uma batera acústica, não com o meu set-up atual,
que é bem mais tecnológico, uso iPad, controle do Wii… Fizemos
essa primeira brincadeira e, como era uma festa da Cool, tinha
bastante gente do meio ali. A galera gostou e começaram a rolar
vários convites. Decidimos fechar algumas datas, mas na época
eu ainda estava com a 9 Mil Anjos, que é rock, totalmente diferente,
mas comecei a fazer uma data ou outra. Achei o máximo tocar
com eles desde o início. Uma hora a gente falou: “meu, isso
é muito bom, vamos
fazer mais!” Quando a parada ficou mais séria, resolvemos formalizar.
Como funciona uma apresentação do Dexterz?
Quanto é ensaio e quanto é improviso?
Eu diria que 90% é improvisado e 10% é pré-estabelecido. Não
ensaiado. Como tocamos muito, tem aquelas músicas que você já
sabe que funcionam. De resto, o DJ resolve qual vai ser o próximo
track e a gente sai tocando em cima. Ele coloca uma base, sempre
misturada com o que já está tocando antes, eu ouço, as vezes
reconheço a música as vezes não, e vou pelo feeling. Penso: “com
isso aqui combina uma percussão africana. Com essa, vou fazer
uma mais indiana. Nessa vamos pro eletrônicão…”, e por aí vai.
Você compõem juntos?
A gente produziu até agora duas faixas, mas não finalizamos 100%
nenhuma. As duas estão praticamente prontas. É falta de tempo
mesmo, a gente não tem data. Está impossível.
Quando pensam em lançar algo?
Já comecei a compor uma série de coisas para deixar no gatilho
para mostrar para os dois. Ainda não sabemos como vamos lançar,
se será individualmente ou um EP. Ainda não conseguimos parar,
sentar e olhar para essa parte com calma. A liberdade que se
tem com a música eletrônica é muito grande. Estamos tocando
direto essas faixas que nós produzimos nas apresentações e
ninguém sabe. Mas isso é importante para nós, pois vamos sacando
o que funciona, a reação das pessoas, aonde pode melhorar…
Você vai pelo clima.
Deve ser um universo bem diferente para você.
Claro. Antes não tinha essa de testar uma música. Fazia um disco,
colocava no mercado e rezava! (risos). Aqui não. É outra praia.
Eu estou aprendendo o ritmo do negócio. O ritmo de trabalho
mesmo. É tudo muito novo ainda pra mim, bem diferente do outro
mercado, onde eu trabalhei por 17 anos.
Vocês tocam muito?
Muito. O Dexterz toca muito. O Crossover toca mais ainda. O Amon
ainda tem Família Lima, toca com o Angra e com o Rafael Bittencourt.
Ele atende a quatro agendas. Eu faço o Dexterz e produzo outras
coisas. Fiz o disco da minha irmã e estou fazendo outros trabalhos
por fora, de direção e tal. Nesse final de semana vou fazer
a trilha sonora de um espetáculo espanhol chamado La Fúria
dels Baus, ao ar livre. Eles usam guindastes, é bem maluco!
Estou fazendo essa trilha com o meu cunhado, o Lucas.
O ritmo da sua vida hoje é muito diferente
da época de Sandy e Junior?
Eu tive uma fase que estava bem mais tranquilo, ali entre o final
de 9 Mil Anjos e o começo do Dexterz. Hoje em dia eu estou trabalhando
tanto quanto na época que fazia Sandy e Junior.
Sério?
Se bem que teve uma fase de Sandy e Junior que acho que foi a
mais corrida da minha vida. Na época do seriado pra Globo,
a gente gravava seis dias por semana pra meia hora no ar. Essa
época foi foda. Ia pro colégio às seis da manhã, chegava em
casa à uma da tarde, almoçava e ia pro outro colégio, onde
era a gravação. Ficava lá até às dez e tanto da noite, voltava
pra casa e ia dormir tipo meia noite, pra acordar às seis no
dia seguinte outra vez. Sábado era dia de fazer as externas,
então chegava às oito no colégio, quando não tinha alunos.
Ficávamos lá até às cinco da tarde, pegávamos um jato e íamos
tocar onde fosse, sábado e domingo. Foram três anos assim.
Hoje em dia eu trabalho bastante, mas não tanto.
O que aconteceu com a 9 Mil Anjos?
Quando a gente começou a banda, não sabia se ia ser um projeto
de um disco ou de uma carreira toda. Foi um experimento. Até
porque tinha ali um vocalista que era novo, ninguém conhecia…
Fizemos um primeiro disco, que eu achei legal pra caralho.
Ficamos super satisfeitos. Foi um período em que eu evoluí
muito como baterista. Conforme lançamos o disco, naturalmente
as coisas caminharam para terminar em um disco só mesmo. Cada
um ali vinha de um lugar… Tem muita coisa que tem que dar certo
para uma banda dar certo. Ao mesmo tempo, eu já estava participando
com o Crossover, conheci o mundo eletrônico, que me atraiu
muito. Foi uma migração natural.
Hoje você toca um projeto independente. Não
seria uma forma de libertação, depois de tanto tempo seguindo
protocolos e um formato pré-estabelecido?
Claro! Hoje tenho muita liberdade para fazer muitas coisas. Pô,
eu produzi o disco da minha irmã. Eu adoro produzir!
Como foi isso?
Foi ótimo! Eu já tinha produzido os últimos discos de Sandy e
Junior. Mas dessa vez era um álbum só dela, é diferente. Foi
um grande exercício como produtor. Eu não queria colocar a
minha personalidade, queria colocar a dela. Mas não é fácil.
O Lucas, marido dela, compôs grande parte do disco junto com
a Sandy. Eu compus algumas também. A gente estava muito por
dentro do que ela queria. Ela achou melhor do que chamar um
produtor de fora ou um gringo que não sabe nada da história
dela, etc.
Você também dirigiu um clipe da Família Lima,
certo?
Sim, o Lucas me convidou. O meu hobby é fotografar e mexer com
vídeo é meio que uma extensão disso. Eu me cerquei de pessoas
que entendiam do assunto e dirigi com um parceiro meu chamado
Douglas Aguilar.
E compôs coisas para a TV também.
Sim, fiz a trilha do Legendários.
Hoje você tem uma carreira bastante ramificada.
O que mais te atrai?
Acho que dá para conciliar tudo. Dentro da música existem várias
vertentes. A minha parada é música. Não me vejo sendo só produtor,
por exemplo. Gosto de fazer minhas coisas, até porque eu já tenho
um nome e tal. Meus dois tesões são produzir e as apresentações
ao vivo. Algumas coisas eu nem gosto, mas aturo para poder ter
essas duas.
E dirigir shows?
É uma nova paixão que descobri. É um negócio muito foda, muito
divertido. Nunca tinha dirigido oficialmente, mas sempre dei
palpites, porque, enfim, a vida toda eu fiz isso. Mas, dessa
vez, fui chamado para ser o diretor do show da minha irmã,
que está em turnê agora. Aí vem toda a parte criativa, elaborar
o conceito do zero… Como tem muitas partes em video durante
o show, saímos filmando, fomos viajar, editamos tudo… Foram
noites de trabalho viradas.
O Dexterz pensa em fazer carreira internacional?
Muitos DJs brasileiros estão se dando bem lá fora.
A gente já fez um show em Orlando, mas foi uma parada mais para
brasileiros. Mas, dois dias depois, tocamos na Mynt, em Miami.
Foi a nossa estreia num club lá fora. Foi ótimo, bombou e tal.
Ano que vem, nós provavelmente vamos marcar mais datas nos EUA.
Não é o nosso objetivo principal, porque o Brasil é um mercado
gigante. Muito maior do que eu imaginava.
O fato de você ser um nome conhecido abre
muitas portas?
O que acontece é a gente se apresentar em alguns eventos grandes,
que fogem um pouco dessa linha club. Tocamos agora no Ceará Music,
depois do Chiclete com Banana (risos)! Pensamos: “meu, como vai
ser isso? Chiclete com Banana e eletrônico instrumental?” E bombou!
A casa caiu! Ninguém arredou o pé. Foi muito bom.
O seu gosto musical mudou depois que você
entrou para esse universo?
Sim, bastante. Estava até reparando que no meu carro antigamente
eu só tinha CDs de rock, rock, rock… E rock com um pé no eletrônico,
vai (risos). Hoje em dia os três primeiros CDs são de eletrônico.
O que você ouve?
Gosto muito do trabalho do Nick
Fanchuli. Tenho ouvido também Josh Wink. Joris Voorn é muito
foda! O CD novo do Gorillaz
é bem bom também.
Os fãs de Sandy & Junior
entendem seu som atual?
Acho que entendem. Se você vai lá ouvir, não é difícil de sacar
qual é. Posso não atender a todas as expectativas, por exemplo,
daquela fã que queria me ver cantando e tal. É bem diferente.
Acontece de usarem meu nome para divulgar o show a atrair pessoas
que já me conhecem do outro trabalho. Mas se você, ali em cima
do palco, não representar, não fizer um som bom, não tem nome
que segure.
Onde você se imagina daqui uns dez anos?
Não consigo imaginar, porque as coisas foram para o lado oposto
de tudo o que eu imaginei (risos)! Mas a minha vontade é a
de continuar exercitando um pouco de tudo o que eu já tenho
feito. Descobri essa paixão nova, que é dirigir, mexer com
vídeo. A imagem me atrai. Continuarei mexendo com arte, isso
com certeza.
Entrevistado por Ricardo Schiesari Cruz e
publicado na Mixmag Brasil # 8 (jan/fev 2011) |