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Formada em Letras, Sandy está prestes a estrear como escritora.
De acordo com nota publicada pela revista "Veja", a cantora terá um conto seu publicado em uma coletânea com fins beneficentes.
O conteúdo está sendo organizado pela agência de conteúdo Contente, e terá textos
de outros cantores conhecidos, como Lenine, Erasmo Carlos, Pitty
e Rogério Flausino.
O lançamento está previsto para maio e toda
a renda será revertida para instituições de caridade.
Ainda de acordo com a revista, o conto escrito
por Sandy fala sobre uma menina em busca da receita perfeita
de rosquinhas de coco.
Confira abaixo o conto:
Ovo de óleo
Sandy
O que havia de errado com a receita das rosquinhas de coco, que não ficavam iguais
às de Bernadete? A menina de 10 anos, tomada de frustração, tentava
decifrar o enigma. Durante suas férias no campo, ela observara
atentamente, do degrau entre a cozinha e a sala, a mulher que
preparava as rosquinhas mais macias e gostosas que ela já provara.
De volta a sua casa, tentava reproduzir o feito. Sem sucesso.
Seria a falta do “ovo caipira”? As marcas de farinha disponíveis
em Campinas seriam diferentes das de lá? Seria, talvez, a falta
da mão confiante e experiente de Bernadete? Ou teria a mulher
passado a mágica receita erradamente? Não, ela era atenciosa
e bondosa demais para fazer algo do tipo.
É, talvez fosse mesmo a falta daquele ingrediente
que ela não conseguia entender... “Cinco meias cascas de ovo
de óleo.” O que seria um “ovo de óleo”? Na dúvida, pegava apenas
cinco ovos “normais” e, um a um, ia acrescentando à massa somente
o que cabia na metade da casca de cada um. E a massa ficava sempre
ressecada, rígida, que droga!
Depois de duas tentativas fracassadas, a pequena,
finalmente, venceu a vergonha de sua possível ignorância e perguntou
à mãe o que seria o “ovo de óleo”. A mãe, ocupada e sem dar muita
atenção à estranheza da questão — “coisas de crianças...” —,
apenas disse que não existia animal algum chamado “óleo”, portanto,
não teria como existir tal ovo.
Ao longo daquele ano, a menina tentou acertar
a receita duas, três, cinco vezes. Desistiu. Resolveu que, nas
próximas férias, pediria a Bernadete que preparasse novamente
as rosquinhas, explicando-lhe detalhadamente o processo. Aí,
sim, essa receita danada não mais lhe escaparia às mãos!
Passaram-se os meses e, depois de ela controlar,
com muito custo, a enorme ansiedade, enfim, as férias! Foi então
que veio a grande decepção: chegando à fazenda, a pequena aspirante
a mestre-cuca perguntou pela “professora” e recebeu a trágica
notícia de que ela havia deixado o emprego para trabalhar em
outra cidade. Que tristeza, quanta falta de sorte... Parecia
que aquelas rosquinhas queriam pertencer apenas a sua mestra
criadora, e a mais ninguém!
Tal frustração fez com que a menina decidisse
encerrar suas atividades culinárias. E “para sempre”! Era quase
um sentimento de humilhação aquilo que a invadia, ao fim de tantas
tentativas fracassadas. Não queria mais sentir aquilo. Mesmo
sabendo da existência de outros milhares de receitas possíveis
de ser executadas, o medo de não acertar e, então, sentir algo
parecido a paralisava.
Anos se passaram e a pequena deixou de ser
pequena. No alto de seus 17 anos, ela concluía, agora, o último
ano de colégio. Pensando nas férias que se aproximavam, lembrou-se
daquele sonho de menina interrompido por si diante da primeira
dificuldade. Que bobagem! Resolveu, então, remexer um pouco nesse
passado. Comprou um livro de receitas!
No ônibus escolar, na volta para casa, a jovem
abriu o livro, folheou, folheou, folheou, escolheu encarar uma
receita de bolo de coco. Na terceira linha de descrição dos ingredientes,
ela leu “meia xícara (de chá) de açúcar”... E, depois, “uma colher
(de sopa) de fermento”... E sorriu.
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